O Fim de uma Era para a Tesla?
Por anos, a Tesla reinou soberana no universo dos veículos elétricos (VEs). O nome da marca tornou-se sinônimo de inovação e futuro, a ponto de ser usado indistintamente para descrever qualquer carro elétrico. Essa percepção, cultivada meticulosamente por Elon Musk, era o grande trunfo da empresa. Contudo, essa hegemonia chegou ao fim. A fabricante chinesa BYD não apenas alcançou, mas superou a Tesla, assumindo o posto de maior vendedora de VEs do mundo.
BYD Supera Tesla em Vendas Globais
Em 2025, a Tesla registrou a entrega de 1,64 milhão de veículos, uma queda de 9% em relação ao ano anterior. Em contraste, a BYD emplacou impressionantes 2,26 milhões de unidades. Essa diferença não é pequena; representa uma derrota clara no próprio terreno que a Tesla ajudou a criar. Além do impacto nas vendas, o valor da marca Tesla sofreu uma queda de 35% no último ranking da Interbrand, evidenciando uma perda de relevância percebida.
O Mistério da Bolsa de Valores e o Poder de Musk
O cenário financeiro, no entanto, apresenta uma contradição intrigante. Enquanto as vendas caem e o valor da marca despenca, as ações da Tesla fecharam 2025 em alta de 11%. Fabricantes tradicionais como a Toyota, que obtêm lucros consistentes com seus VEs, continuam sendo avaliadas a uma fração do valor da Tesla. A explicação reside, em grande parte, na figura de Elon Musk. Ele é, para muitos investidores, a própria Tesla – um visionário que vende não apenas carros, mas um futuro de ficção científica, com promessas de robotáxis e robôs humanoides.
A Dupla Face da Marca Elon Musk
Essa identificação total entre Musk e a Tesla, no entanto, é uma faca de dois gumes. O comportamento errático e as posições políticas divisivas do CEO tornam-se problemas da empresa. Assim como a frase “Republicanos compram tênis também” sugere a necessidade de um apelo mais amplo, a base de consumidores de carros ecológicos nem sempre compartilha das mesmas visões políticas de Musk, o que pode afastar potenciais compradores.
Um Mercado Maduro e Competitivo
O mercado de VEs amadureceu significativamente. Se antes a Tesla tornava os carros elétricos desejáveis, rápidos e luxuosos, removendo o estigma de “carro consciente”, hoje montadoras como Mercedes, BMW, Audi e Porsche oferecem VEs credíveis, apoiados por décadas de tradição. Fabricantes chineses, por sua vez, apresentam modelos de qualidade a preços que tornam a Tesla uma opção cara. A narrativa dos VEs mudou de “salvar o planeta com estilo” para “este é simplesmente um bom carro elétrico”.
O Desafio do Segundo Lugar
Para a Tesla, estar em segundo lugar é, de fato, ser o primeiro perdedor. A identidade da marca está intrinsecamente ligada a ser a pioneira e a inovadora que todos buscam alcançar. Ser ultrapassada, especialmente por um fabricante chinês desconhecido para a maioria, anula essa narrativa. Musk parece ciente disso, buscando reposicionar a empresa como uma companhia de tecnologia, com foco em robotáxis e robôs, sugerindo que “não somos realmente uma empresa de carros”.
Promessas e Realidade
A Tesla parece ter se acomodado em seus louros. A qualidade de fabricação tem sido inconsistente, o atendimento ao cliente deteriorou-se e o CEO tornou-se um passivo. As promessas de um futuro tecnológico, como a condução autônoma total “logo ali” – uma promessa feita há mais de uma década –, contrastam com a realidade de entregas falhas e qualidade questionável.
O Futuro da Tesla: Uma Escolha Crucial
Atualmente, a Tesla enfrenta uma encruzilhada: pode focar em ser uma marca premium de VEs, a “Apple” dos carros elétricos, ou abraçar a transição para uma empresa de tecnologia, apostando tudo na direção autônoma e inteligência artificial. O que não pode mais fazer é fingir que nada mudou. Os resultados estão aí, e a marca que definiu uma categoria inteira foi superada. Para o mundo do marketing e branding, é um caso clássico de como narrativas poderosas eventualmente colidem com a realidade. A questão agora não é se a Tesla pode se recuperar, mas se conseguirá aceitar que, no jogo de marca que construiu, o segundo lugar significa ser o primeiro perdedor, e isso pode exigir uma redefinição completa do que significa vencer.
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