O fascínio duradouro de uma história e suas representações visuais

Com a iminente estreia de uma nova adaptação cinematográfica de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi, e trilha sonora de Charli XCX, o clássico de Emily Brontë volta aos holofotes. Uma nova edição lançada pela Penguin Random House, com capa que espelha o pôster do filme, destaca a importância do design gráfico na recepção de obras literárias. Essa capa, com seu uso generoso de espaço em branco e tipografia evocativa, é apenas o mais recente capítulo na rica história visual do romance, publicado originalmente em 1847.

Para profissionais de branding, publicação e narrativa visual, a trajetória das capas de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ oferece uma aula magistral sobre como o design gráfico pode moldar o imaginário coletivo e adaptar uma obra a diferentes públicos ao longo do tempo.

Do funcionalismo vitoriano à explosão de estilos no século XX

Sophia Schoepfer, editora de ficção da Folio Society, explica que as capas de livros funcionam como um catálogo da evolução do gosto humano. “Cada uma é projetada pensando no público contemporâneo e são continuamente refeitas para atrair leitores da época”, afirma. A capa original de 1847, com seu texto simples e encadernação funcional, é um reflexo das normas editoriais vitorianas que priorizavam a praticidade sobre a estética.

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A partir de meados do século XX, os editores começaram a experimentar mais. Patrick Llewellyn, CEO da 99designs, observa que o design de capa migrou para a ilustração narrativa, refletindo interpretações em mudança dos temas do romance. O estilo do realismo romântico, popular na época, enquadrava a história como um grande romance, como visto na edição da Panther Imperial de 1961.

Na década de 1970, o foco se deslocou para a intensidade psicológica da obra. Capas como a edição Bantam de 1974, com arte de Robert McGinnis, passaram a retratar Cathy isolada contra a paisagem sombria e tempestuosa dos charnecas de Yorkshire.

O século XXI: Abstração, simbolismo e a ascensão do digital

No século XXI, a evolução continuou. Llewellyn aponta que as versões encadernadas em tecido da Penguin usam padrões florais ou geométricos abstratos, sem pistas narrativas, enquanto outras edições apresentam gráficos altamente estilizados. Essas tendências refletem a influência da era digital, onde capas de romance ilustradas ganharam espaço, substituindo a preferência anterior por fotografia.

Katie Edmundson, designer sênior da Studio Noel, acrescenta que essa mudança de cenas literais para ênfase em temas emocionais e imagens simbólicas visou atrair o mercado jovem adulto, com estéticas que lembram o fenômeno ‘Crepúsculo’.

O valor do tangível e a busca por significado

A percepção do livro físico como um objeto valioso e tangível tem ressurgido em meados da década de 2020. Schoepfer vê isso como uma resposta ao mundo cada vez mais digital, com uma redescoberta do valor do artesanal e do físico. Isso se traduz em uma preferência por edições de capa dura de alta qualidade e design duradouro.

Duncan Kelly, diretor criativo associado da Siegel+Gale, teoriza que ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ perdura por ser uma história de amor atemporal, mas que suas capas muitas vezes lutam para capturar sua profundidade. Ele argumenta que os designs frequentemente recorrem a clichês visuais reconhecíveis, como um Heathcliff sombrio ou paisagens agrestes, que descrevem a superfície em vez da escala emocional do romance.

A capa de tie-in e o diálogo entre mídias

A capa de tie-in lançada pela Penguin hoje tem um propósito comercial claro: atrair espectadores do filme para a obra original. Schoepfer explica que essas capas reinventam o livro para novos públicos. Embora alguns leitores prefiram a liberdade de formar suas próprias imagens, ela acredita que há espaço para ambas as abordagens.

Curiosamente, a influência visual nesta nova adaptação também fluiu na direção oposta. A diretora Emerald Fennell escalou Jacob Elordi porque ele se parecia exatamente com a ilustração de Heathcliff na primeira edição que ela leu. Patrick Llewellyn vê isso como uma prova do poder do design: “as capas não são apenas embalagens; são frequentemente nossa primeira interpretação visual de uma história”.

Em última análise, a jornada das capas de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ demonstra que o design de capas é uma disciplina complexa e poderosa. Lara Green, produtora criativa e estrategista de marca da People People, a descreve como um ponto de intersecção fascinante entre a arte e o consumidor, interpretando ambas. O objetivo é honrar o material original enquanto se cria algo inegavelmente contemporâneo. A coexistência de diferentes capas, cada uma servindo a públicos distintos, é o que mantém clássicos como este vivos na conversa cultural, impulsionando um engajamento renovado com o texto.

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About The Author

By Arthur Willians

Um cara que já passou dos 30, mas ainda é viciado em animes e o mundo da ilustração digital. Agora com a nova meta de divulgar e incentivar o máximo que puder todos a acreditarem nas habilidades de desenho