A Famosa Foto em Xeque
A icônica fotografia “Terror da Guerra”, que retrata Phan Thi Kim Phuc fugindo de um ataque de napalm durante a Guerra do Vietnã, sempre foi creditada a Nick Ut, da Associated Press (AP). No entanto, o documentário “The Stringer” levanta dúvidas sobre essa autoria, sugerindo que o fotógrafo freelancer vietnamita Nguyen Thanh Nghe pode ter sido o verdadeiro autor da imagem, vendida à AP por uma pequena quantia e posteriormente apagada do registro histórico.
Reações e o Foco na Autoria
A comunidade do fotojornalismo reagiu rapidamente, com posições se endurecendo e o debate se polarizando entre culpa e inocência. Alguns colegas de Nick Ut defenderam sua autoria, recusando-se a assistir ao filme por considerarem suas alegações sem mérito. No entanto, o autor do artigo argumenta que ideias devem ser examinadas, não evitadas, especialmente quando provocam reações fortes, ressaltando a ironia de profissionais que pedem ao público para testemunhar e examinar evidências, mas se recusam a ver o trabalho que criticam.
O Problema Sistêmico Exposto
Para o autor, a fixação na autoria, embora compreensível, ofusca uma questão mais profunda: os padrões de longa data nas relações entre poderosas organizações de mídia ocidentais e fotógrafos locais. O documentário expõe como o trabalho de fotógrafos e freelancers do Sul Global é frequentemente diminuído, absorvido ou apagado. A Associated Press reafirmou a autoria de Ut, enquanto organizações como o World Press Photo suspenderam a atribuição, admitindo a possibilidade de outros autores. A situação permanece em um impasse.
O Poder do Arquivo e a Memória Institucional
O artigo destaca a influência das instituições de mídia ocidentais na definição do registro histórico e na autenticação de imagens. Quando os arquivos estão em Nova York, Londres ou Paris, e os freelancers trabalham em locais como Saigon ou Manila, o poder de determinar a autoria raramente pertence a quem segurou a câmera. O texto cita o depoimento do veterano David Burnett, que contestou as alegações do filme, e a carta de Carl Robinson, que trabalhou na AP em Saigon, contradizendo as memórias de Burnett e enfatizando a necessidade de fidelidade aos fatos documentados em vez de mitos. A imperfeição da memória e a incompletude dos arquivos são ressaltadas.
Exploração e Precariedade no Fotojornalismo Global
A matéria aprofunda a discussão sobre a exploração de fotógrafos locais e freelancers. Esses profissionais, que navegam em regiões desconhecidas, fornecem acesso, conhecimento cultural e absorvem perigos significativos, raramente recebem o reconhecimento, a proteção ou os benefícios de seus colegas ocidentais. O termo “stringer” em si sugere descartabilidade e falta de permanência. O autor compartilha relatos de fotógrafos das Filipinas e da Índia que sofreram com a falta de crédito, remuneração inadequada e promessas quebradas, normalizando a exploração como parte do trabalho. Pesquisas confirmam que esses jornalistas frequentemente trabalham sem contratos, seguro saúde ou treinamento de segurança, enfrentando riscos iguais ou maiores que correspondentes estrangeiros, mas com pouca visibilidade e crédito. A estrutura econômica, com diárias baixas e a ausência de contratos, reforça essa precariedade, empurrando o risco para os trabalhadores menos protegidos.
Uma Questão de Poder, Não Apenas de Uma Foto
Em última análise, o artigo conclui que o debate sobre “Terror da Guerra” transcende a autoria de uma única imagem. Trata-se de um sistema global que valoriza mais o acesso às imagens do que a responsabilidade para com seus criadores. A possibilidade da reivindicação de Nguyen Thanh Nghe reflete uma desconfiança arraigada na forma como as organizações de mídia globais distribuem crédito e compensação. A conversa, portanto, não deve terminar com um veredicto sobre a foto, mas sim iniciar uma reflexão mais ampla sobre como o jornalismo decide quem é visto, quem é lembrado e quem é escrito para fora da história. Para avançar com integridade, a indústria precisa de sistemas de crédito mais justos, proteções mais fortes para freelancers e a disposição de reconhecer que muitas imagens icônicas foram feitas por pessoas cujos nomes talvez nunca conheçamos.
![]()
