O Dilema da Interatividade Perdida
Os videogames modernos alcançaram um nível técnico extraordinário, com gráficos que beiram o fotorrealismo e trilhas sonoras dignas de cinema. Contudo, uma tendência preocupante tem se consolidado nas grandes produções: o controle excessivo por parte dos desenvolvedores. Ao converter momentos que deveriam ser de pura interação em cenas não jogáveis ou em sequências de botões rápidos (Quick Time Events – QTEs), muitos estúdios parecem ter esquecido a essência do entretenimento interativo: a liberdade e a capacidade de ação do jogador.
A Falta de Confiança no Jogador
O cerne do problema reside na falta de confiança. Em situações que exigiriam habilidade, estratégia ou improviso do jogador, o controle é subitamente retirado. Em vez de permitir que o jogador supere um desafio com esforço próprio ou execute uma manobra ousada, o jogo opta por um corte abrupto para uma cena cinematográfica. O resultado é um espetáculo visualmente impressionante, mas que falha em criar uma conexão emocional profunda, pois o jogador não se sente o verdadeiro autor daquela conquista.
Exemplos Clássicos e Gigantes da Indústria
A franquia Call of Duty é um dos exemplos mais emblemáticos dessa “ditadura do roteiro”. Famosa por suas sequências de ação vertiginosa, como prédios desmoronando e perseguições eletrizantes, a série frequentemente força a câmera para que o jogador apenas assista a explosões pré-programadas. Momentos de alta tensão são reduzidos a um simples comando de pressionar um botão, apenas para manter a ilusão de participação. O jogador é tratado mais como um espectador de um filme de ação do que como o protagonista.
Mesmo gigantes como a Rockstar Games, conhecida por sua imersão, não estão imunes. Em Red Dead Redemption 2, apesar de um mundo incrivelmente reativo, as missões principais sofrem com rigidez. Tentar se desviar minimamente do caminho planejado durante um tiroteio pode resultar em uma tela de “missão fracassada”. O momento é do diretor do jogo, não de quem o está jogando. A Sony, com títulos aclamados como God of War Ragnarok, também limita a participação ativa do jogador em batalhas contra chefes, optando por resolver clímax emocionais através de animações em vez de mecânicas de combate genuínas.
A Memória Criada pela Agência do Jogador
Em contraste, jogos que depositam confiança no jogador tendem a se tornar experiências muito mais memoráveis. Títulos recentes como Elden Ring e Helldivers 2 não hesitam em permitir que os jogadores falhem de maneira caótica. Quando algo espetacular acontece nesses jogos, é resultado de uma decisão arriscada ou de uma adaptação sob pressão. A ausência de uma “rede de segurança” narrativa garante que o momento seja verdadeiramente do jogador, gerando histórias que as pessoas adoram compartilhar.
O Valor do Esforço e o Futuro dos Games
É compreensível que confiar na agência do jogador demande mais tempo e recursos de design e desenvolvimento. Sistemas precisam ser flexíveis e os cenários devem acomodar múltiplos resultados. No entanto, o esforço compensa. O excesso de dependência de cenas cinematográficas faz com que muitos games pareçam filmes caros com breves momentos interativos. O público não busca menos espetáculo, mas sim a posse e o controle sobre ele. No fim das contas, é a interatividade que torna os videogames uma mídia única. Permitir que o jogador tenha o controle nos grandes momentos pode comprometer a coreografia perfeita de uma cena, mas é o único caminho para criar memórias duradouras. O futuro dos games depende da aceitação dos desenvolvedores de que a perfeição de um roteiro jamais superará a riqueza da imperfeição de uma jogada real.
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