A culpa que não sai da pele
Logo no início da 3ª temporada de ‘Jujutsu Kaisen’, somos apresentados a uma sequência de eventos sombrios. Yuji Itadori caça maldições criadas por Kenjaku, Choso enfrenta Naoya, e Yuta aparentemente mata Itadori. No entanto, o que realmente sela a superioridade do anime sobre o mangá acontece antes de qualquer confronto explosivo. Uma cena simples, silenciosa e profundamente simbólica: Yuji lavando as mãos compulsivamente. Sem diálogos ou exageros, a imagem pura transmite um significado avassalador. Essa escolha da direção do anime demonstra uma compreensão madura de que nem todo trauma precisa ser verbalizado; alguns precisam ser sentidos. A cena deixa claro que Yuji não saiu ileso do Incidente de Shibuya, carregando uma quebra interna que o acompanhará para sempre.
O gesto de lavar as mãos em excesso é uma representação visual do estresse pós-traumático, ecoando a icônica cena de Kakashi em ‘Naruto’, que também buscava se livrar de uma culpa invisível. Durante o Incidente de Shibuya, Sukuna, em controle do corpo de Yuji, causou um massacre que destruiu a cidade e ceifou centenas de vidas. Yuji, mesmo sem controle, testemunhou o horror e sabe que, sem a intervenção de Gojo, o desastre poderia ter sido ainda maior, com vítimas como Inumaki sofrendo ferimentos irreversíveis. Essa culpa se manifesta em um comportamento obsessivo, onde o sangue, metaforicamente, não sai, não importa o quanto ele lave as mãos. O anime visualiza essa angústia sem a necessidade de explicações, em uma decisão sensível e poderosa.
Shibuya: o pecado original que ecoa
O caos em Shibuya não foi um mero acidente, mas sim um plano orquestrado por Kenjaku, utilizando o corpo de Suguru Geto. Ao manipular maldições poderosas como Hanami e Jogo, Kenjaku criou as condições ideais para selar Satoru Gojo, deixando o mundo vulnerável. Apesar da derrota de Hanami e do fim de Jogo com o despertar de Sukuna, o dano já estava feito. O clímax se atinge com a invocação de Mahoraga por Megumi, forçando Sukuna a intervir. A expansão de domínio de Sukuna e sua flecha de fogo resultam em uma devastação sem precedentes, com prédios desmoronando, vidas sendo extintas e Inumaki perdendo seus braços. Este cenário de desolação é o pano de fundo emocional que explica a decisão de Yuji de se afastar da Escola Jujutsu e de Megumi. Ele passa a agir ao lado de Choso, entrando no Jogo do Abate não como um herói, mas como um risco ambulante para aqueles ao seu redor.
O vitral vermelho e o julgamento eterno
No mangá, a cena de Yuji sentado sozinho em uma escadaria, embora eficaz, é complementada pela adaptação do anime. Sob a nova direção, a escadaria ganha um vitral ao fundo, evocando imediatamente a atmosfera de uma igreja. A solidão se transforma em um sentimento de julgamento, confissão e pecado. A iluminação vermelha banha o corpo de Yuji, simbolizando o sangue e as mortes causadas por Sukuna em seu corpo. Essa cor, já estabelecida na cena inicial como a tonalidade da culpa, reforça a mensagem de que o trauma de Yuji é indelével, independentemente de quantas maldições ele derrote. O anime eleva um momento simples do mangá a uma experiência visual e emocional devastadora, provando que, em muitos casos, a adaptação pode não apenas respeitar, mas aprimorar a obra original.
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